Nem sei bem por onde começar. Remexer nesta página, deste livro que Eu sou, pode deixar-me com mais forças ou um pouco abalada.Quando o meu filho nasceu, eu não sabia muito sobre a Maternidade. Apesar de a gravidez me ter parecido uma eternidade, desde o nascimento até ao dia do 1º aniversário, foi uma viagem à velocidade da luz. Estava tudo bem, dentro do esperado e mais ou menos como tinha idealizado até então. Nada fazia prever que, de um momento para o outro, fosse tropeçar em mim mesma e deixar-me cair tão fundo. Era um ano em grande, concretizámos todos os nossos planos. Só sei que passei metade do ano a planear três dias de festa, e a outra metade a recuperar deles.Um Casamento, dois aniversários e um Batizado. Claro que eu era capaz de gerir tudo! Naquele que seria um dos dias dos meus sonhos, ainda que sem vestido de noiva propriamente dito, sem Igreja, sem convidados, tão simples quanto nós, tão “só nosso” quanto desejámos, eu não estava feliz! Aquele que se fez meu marido nesse dia, ainda que já o fosse de qualquer das formas, estava um charme! O meu filho, prestes a fazer 1 aninho, vestia um body com papilon, nem sequer andava e já usava sapatos à maneira, era muita fofura junta! E eu, levantei-me de madrugada, passei 45 min a maquilhar-me, fui ao cabeleireiro, enfiei-me numa cinta e num lindo vestido. Mas não me sentia bem! Não estava tão feliz como era suposto e nem sequer sabia explicar porquê! Tinha passado vários meses no ginásio, a fazer dieta rigorosa, a sacrificar-me, porque um ano depois de ser Mãe, eu tinha que estar perfeita! Nem que fosse só naquele dia, em que eu ia casar, com o meu melhor amigo e com o meu filho ao colo! Nada nem ninguém tinha o direito de me fazer sentir mal, só eu! Só na minha cabeça podia ter acreditado em todas as macumbas do Universo. Alguma coisa tinha que justificar um dia tão bom e com tanto de errado. O não gostar do que via ao espelho nem nas fotografias. O continuar a sentir-me gorda e que nada me assentava bem. O sorriso forçado, o choro fácil, o humor desequilibrado.

O meu filho fazia um ano, e eu, que sempre adorei escrever, não tinha palavras para lhe dedicar. O turbilhão de sentimentos era tal, que só me restava ficar pelas emoções interiores, admirar o sorriso e o olhar dele, enquanto abria os embrulhos pela 1ª vez. E deixar-me encantar por todas as 1as vezes que lhe proporcionámos nesse dia. E mais uma vez, eu lutava com a minha voz interior. Eu só queria estar feliz, leve e realizada! Passara muito tempo, talvez um ano inteiro, a sonhar com aquela altura, com os dias mais felizes das nossas vidas, depois do nascimento dele!

Celebrámos cada data, concretizámos a festa que idealizámos, e fomos de férias. Acreditei que a culpa da minha exaustão era somente da minha exigência para que tudo estivesse maravilhoso. E estava, aos olhos dos outros. E bem lá no fundo, havia um orgulho dentro de mim que transbordava e me dizia: “boa, estás com péssimo ar, mas foste fantástica!”.E fui mesmo!

Eram as nossas primeiras férias a três. Foram somente espectaculares! Um Resort 5estrelas, com tudo a que tínhamos direito, com tudo o que merecíamos, com tudo de bom!

Depois comecei a sentir-me doente…Ainda íamos a meio e eu, inconscientemente, já temia o fim daquelas férias. Mas porque?! Não tinha que voltar para um trabalho, nem passar pelo stress pós-férias. Tinha o meu filho tão perto, sempre comigo. Ia somente voltar à nossa rotina habitual. Mas sentia-me sozinha e vazia! Não queria que o meu Marido voltasse ao emprego dele nem por nada. Depois de voltarmos, foram muitas as manhãs em que a acabar de me levantar, voltava a deitar-me no sofá e chorava! Pedia-lhe tanto que não fosse, que não me deixasse! Não tinha forças, não tinha vontade, doía-me o corpo todo e a cabeça, só me apetecia vomitar… Não queria sequer cuidar do meu filho. Doía-me mais ainda, sentir e saber que ele precisava tanto de mim, e eu já não suportava ouvi-lo, não tinha paciência. Deixei de sair de casa, só queria dormir e chorar. E chorei muito, tanto como agora, enquanto me relembro dessa fase e escrevo isto! Estava cansada, tão cansada! Não me faltava nada, o meu filho era e é incrível, estávamos e somos felizes! Não compreendia porque raio me sentia assim, tão insignificante, tão horrível, tão sem energia. Esqueci-me de quem eu era, desisti de mim enquanto Mulher. Descarreguei muitas vezes naquele que nunca desistiu de mim, mesmo quando o rejeitava a torto e a direito. Acabávamos de casar e eu já me questionava se Ele não me iria deixar, porque nem eu me aturava a mim mesma naquele estado.

Passei a ir cada vez menos ao ginásio e desculpava-me com todas as dores. Fechei-me no meu Mundo, despejava toda a minha frustração e angústia à noite, quando eles dormiam, de dia sozinha no wc, no banho, ao telefone com a minha Mãe. A dada altura, engolia tudo só para não ter que o fazer á frente do meu marido que já não podia ver-me assim, nem do meu filho que não merecia nem compreendia. Foi durante essa fase, que lhe dei os primeiros berros e lhe bati na mão. Perdi a cabeça e não, não podia tê-lo feito! Havia uma parte de mim que morria naquele instante.

Quando já não aguentava ver-me num corpo que desconhecia, numa figura que não era a minha, numa postura de Mãe que não condizia comigo nem com os meus ideais, procurei respostas. Precisava de perceber a causa, o que poderia ter-me levado até ali, se eu não encontrava uma razão que o justificasse!

Desconfiava do diagnóstico, só não queria acreditar. Esgotamento!! Sim, eu tive! Não era uma depressão dita normal ou pós -parto. Era “só” o limite do meu cansaço que há muito havia sido ultrapassado. Exigia de mim ser a Super Mulher, a esposa e Mãe perfeita. A filha, irmã, neta, amiga, exemplar. O que eu não sabia, era que não tinha que o ser, de forma alguma! Foi quando me debatia com aquela nova realidade na minha vida, que acordei desse pesadelo. Tomei “apenas” 2 compridos e logo desisti! Tão depressa estava no fundo do poço, como a seguir estava a lavar a cara e arregaçar as mangas. Porque não estava nos meus planos passar os dias naquele estado, sentir-me toda atrofiada, negligenciar os cuidados para com o meu filho. Nem pensar! Estava muito cansada sim, só que a minha força de vontade era bem maior, o meu filho era e é a minha razão e motivação, para tudo! O meu bebé começava a dar os primeiros passos, e mais do que nunca, precisava de mim naquela nova caminhada. Prometi a mim mesma, que depois de estar tão em baixo, de perder algumas supostas amigas pelo caminho, de me desleixar por uns meses, o meu EU reapareceria, maquilhada de sorrisos e vestida de felicidade! A seu tempo, com algumas cicatrizes, mas renovada e com mais uma lição de vida.

Dei a volta por cima, passei a acordar todos os dias com um sorriso, acreditei que pensamentos positivos só atraem coisas boas, voltei a cuidar de mim tanto quanto eu merecia. Mais do que isso, continuei a dedicar-me a 100% ao meu filho, voltei a colocar de lado a hipótese de ele ir para a creche naquela altura, abracei a minha vida de novo e agradeci muito! Ao meu marido, à minha família, à minha fé. Depois disto, o jeito com que encaro tudo aquilo em que me tornei, tem-me permitido superar-me a mim mesma, continuar a cuidar por 24h, todos os dias, deste meu pequeno ser que é tão especial, escolher o caminho que eu quero percorrer, traçar os meus objetivos. Além das coisas fabulosas e das pessoas excecionais que entretanto se têm cruzado no meu percurso e que com elas trazem a certeza, de que nada acontece por acaso!
Já passou 1 ano! Não desejo a ninguém passar por um esgotamento nem algo semelhante, muito menos quando se é Mãe. Ainda menos, quando o fazemos a tempo inteiro, por bastante tempo! Desejo sim, que todas as que passarem por isso, tenham tanto apoio quanto eu tive. Não é fácil dar um ombro para alguém chorar. Custa muito quando se é amigo ou familiar e vemos a outra pessoa desolada, sem forças e a lamentar-se no decorrer dos seus dias. Todos vivemos á margem dos nossos problemas, não queremos os dos outros para nada. É compreensível até. Acredito que seja uma impotência muito grande para quem está de fora, mas é bem maior para quem está “perdido” numa mistura de sentimentos inversos e descontrolados. É nestas alturas que devemos abrir o coração, sem intrometer demasiado, apenas dizer e fazer o outro sentir que “eu, estou aqui”! Porque eu precisei disso e sei que é assim. Em especial, às outras Mães, sei que seremos sempre as mais vulneráveis as estas partidas que a maternidade nos prega. E seremos sempre, também, as mais capazes de superar e determinadas a seguir em frente! É preciso muita coragem e muito amor. Antes de amar os outros, amar-nos a nós mesmas, sem duvidar das nossas capacidades, sem exigir mais do que realmente podemos dar ou fazer! E acreditar, que tal como muitas outras fases, vai passar, tem que passar!

A Inês é a mãe do adorável e doce L. que acabou de completar 2 aninhos e é só um dos miúdos mais giros e fofos que conheço. Mãe a tempo inteiro por opção, já que não quis perder um segundo da vida do seu filho. É no seu blogue Eu, agora Mãe que nos conta um bocadinho da sua história de amor e partilha as aventuras da maternidade. Passem por lá e inspirem-se.